Tenho 94 anos, e pergunto-me, porque cheguei aqui? Antes acordava, não falava em quanto não lavasse os dentes, agora não falo porque não os tenho, esforço-me para fazer o meu prato favorito mas nem isso consigo. A minha mulher por aqui não existe, e o meu coração nunca bateu por mim, mas sim por ela, o sorriso dela está estampado na minha cara todos os dias, aquele sorriso croquete. Tu não sabes quem eu sou, mas eu sei quem tu és, e só preciso de segundos da tua atenção, não quero que me vejas, tenho medo de perder o encanto aos teus olhos, é que esta é apenas a minha pele, eu não sou este. A arritmia entre eu e tu, não é nenhuma, mas do que vale fazer amizades, chegar á minha idade e só ter me a mim. Por favor, dá me atenção, não me perguntes o que eu tenho, pergunta-me o que eu já tive, não me perguntes do que preciso, eu apenas preciso de atenção, pode ser apenas uma troca de olhares durante meros segundos, ficaria consolado.
Pergunto qual é o objectivo de vida quando chegámos a esta etapa, é mesmo o fim? Tenho que me isolar? Não faz sentido, ninguém, chega aqui para o seu fim, não faz sentido.
Nem o meu despertador me serve para algo, é que eu desperto, mas não me levanto, a vida nunca foi uma sorte para mim, porque a sorte? Essa sorte é secundária, quando um dia sorrires, e pensares que ela era tudo o que tu querias e nunca soubes-te que tives-te irás sorrir, e ler o passado, como se fosse o futuro, e o presente, esse nunca é presente.
94 anos, a minha idade favorita foram os 20, em que perdi o que mais imaginei, e corri para os oceanos, embarquei na maior aventura longe de tudo e todos. Resultado? Meu amigo, aprendi que quando queres muito uma coisa, ela foge de ti, quando menos a esperas, o mundo faz por ti o que tu lutas-te 5 anos. Meu caro amigo, a vida são 3 dias, és incosciente, cosciente e voltas á idade mais inconsciente da vida, o agora.
Foi bom este tempo, mas ele sucumbiu, o tempo também foge, ele sempre fugiu de mim.
Miguel Santiago
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